Hobby, convicção, oportunidade: por que produzir orgânicos?

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Ana Maio

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ANA MAIO - EMBRAPA PECUÁRIA NORDESTE.

Fabio Menna, da Fazenda Silvestre, em Sapucaí Mirim (MG), começou a plantar frutas vermelhas orgânicas há sete anos e vende sua produção em restaurantes e lojas de orgânicos de São Paulo, que fica a 170 km de sua propriedade. Ele é um dos participantes do Curso de Pecuária Leiteira Orgânica, que teve o primeiro módulo realizado em Serra Negra (SP) nos dias 15 e 16 de junho.

Engenheiro de áudio e publicitário, Fabio optou por produzir morango, amora, framboesa e mirtilo depois de fazer análise de mercado. A atividade adquiriu escala comercial há cerca de quatro anos. Exigentes em relação à temperatura, essas frutas necessitam de 400 horas e 800 horas de frio por ano. A Fazenda Silvestre fica a 1.500m de altitude e registra boa amplitude térmica.

O interesse pelo leite orgânico é pessoal, praticamente um “hobby” para o publicitário. Ele conta que na época de seu bisavô, aquelas terras produziam leite com a raça pardo-suíço. Com o tempo, a atividade foi abandonada. Hoje trabalham com gado de corte - Angus e Simental – apenas para engorda “em pequeníssima escala”. “A ideia é retornar para a pecuária de leite agregando o orgânico porque acredito nesse método de produção”, contou Fabio. Ele pretende integrar o leite com as frutas, produzindo iogurtes.

'VEJO ALIMENTO COMO REMÉDIO'

O ator Marcos Palmeira, que também está fazendo o curso, produz orgânicos por convicção há 20 anos em uma propriedade de Teresópolis, no Rio de Janeiro. “No começo descobri que eu tirava leite, não produzia leite. Produzir é manter o sistema por um longo prazo e trabalhar melhor com o rebanho”, explicou.

Segundo ele, a fazenda Vale das Palmeiras mudou quando conheceu Ricardo Schiavinato, proprietário da fazenda Nata da Serra, que está sediando alguns módulos do curso. Os dois se encontraram em 2009, em outro curso de agricultura orgânica promovido pela Embrapa. “Na época eu produzia hortaliças e leite, hoje o foco maior é no leite e no Rio de Janeiro”, contou Marcos, que já chegou a vender queijos orgânicos em São Paulo e Minas Gerais.

“É tudo muito sedutor. As pessoas gostam, querem experimentar, você se empolga... Mas decidi concentrar tudo no Rio, onde tenho o laticínio”, afirmou. Quando comprou a fazenda, em 1997, ela já produzia hortaliças. Porém, assim como aconteceu com o dono da Nata da Serra, os antigos proprietários não comiam o que produziam. “Não via problema com o veneno, achava que era só um remedinho. Até que conheci a biodinâmica.”

Há 15 anos Marcos se trata com antroposofia – uma filosofia que explora a natureza do ser humano e do universo e amplia o conhecimento obtido pelo método científico convencional, bem como a sua aplicação em praticamente todas as áreas da vida humana. “Penso o alimento como um remédio. Você quer que a vaca dê mais leite? Você dá boa comida a ela. Quer que o cavalo apresente um bom desempenho em corridas? Melhora a alimentação dele. A gente come para matar a fome”, lamentou.

Marcos chegou ao curso acompanhado do técnico Rosenilton Alves da Silva e da zootecnista Joyce Maria Duarte Gomes, dois alagoanos que estão dando assistência na fazenda. “Estou sempre me capacitando e me reciclando. E trouxe dois parceiros novos desta vez”, disse o ator, que contou ter dificuldade para fechar a agenda, já que está gravando um filme e preparando outro. “É uma luta, mas priorizei o curso.”

MOSCAS E CARRAPATOS

João Paulo Mattar Basile é administrador, músico e pós-graduado em educação. Ele também participou do curso de 2009, mas teve dificuldades para converter sua produção nos últimos anos porque a propriedade passou por um processo de sucessão. “Estudo os orgânicos há anos e produzo banana, coco, manga e maracujá para consumo próprio. Mas a ideia é fazer comercialmente.”

A produção de leite e queijo está em fase de conversão para orgânico e João Paulo disse que vai iniciar os contatos com uma certificadora. Para o produtor, o maior desafio em sua fazenda, que fica em Araguaiana (MT), perto de Barra do Garças, é eliminar o carrapato, as moscas e ajustar o uso de vermífugos. A ideia é vender os produtos em sua região, “no máximo em Cuiabá”.

NESTLÉ

Paulo Diehl, que trabalha na Unidade da Nestlé em Araraquara há 10 anos, também está se capacitando no curso. Ele conta que a empresa tem interesse em agregar conhecimento sobre a pecuária leiteira orgânica, já que está acompanhando o processo de conversão de um grupo de 35 produtores da região de São Carlos.

O cluster de leite orgânico estimulado pela Nestlé pretende estabelecer um ciclo sustentável. Os produtores envolvidos deverão, com o tempo, fornecer insumos para novos interessados na conversão. Atualmente a empresa fornece milho e farelo de soja não transgênico para esse grupo de 35 pessoas. “Não temos como fornecer mais”, afirmou.

Para fomentar a produção orgânica de leite, além de patrocinar o curso para facilitar o acesso às tecnologias, a Nestlé está captando leite desse grupo e pagando pelo valor do leite certificado. Paulo explicou que a empresa não abre mão de seguir a legislação vigente, como a 10.831, de dezembro de 2003, que dispõe sobre a agricultura orgânica, além de instruções normativas como a IN62, IN46, IN19 e IN18, que regulam a produção no campo e o processamento industrial.

Embora venha comprando o leite em processo de conversão para orgânico, a Nestlé ainda o comercializa como convencional – na forma do leite UHT Ninho, de caixinha (tetra pak). Paulo prevê que em fevereiro de 2019 a empresa terá volume de leite convertido suficiente para o processamento de um produto orgânico, mas disse que ainda não foi definido qual será.

 

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Autor(es): 
Ana Maio - Embrapa Pecuária Nordeste