Milho Guarani compõe cardápio alimentar das escolas indígenas de Itanhaém - SP

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Foto: Acervo Funai

Na tarde de ontem (31), indígenas Guarani M'bya da Terra Indígena do Rio Branco, Itanhaém - SP, celebraram a inserção do avaxi ete'i (milho guarani) na merenda escolar das escolas indígenas do município. Na ocasião, foram apresentados os produtores, os parceiros do projeto, dentre os quais se incluem a Funai e a Secretaria Municipal de Educação, assim como os diversos produtos agroecológicos cultivados pelos Guarani M'bya nas aldeias Rio Branco e Aguapéu.

A comemoração foi realizada juntamente à cerimônia de abertura do ritual de batismo Nimongarai, momento em que são revelados e distribuídos os nomes em língua guarani às crianças da aldeia, os quais, segundo os M'bya, representam suas verdadeiras almas.

Para que sejam atribuídos os nomes almas às crianças, os respectivos pais devem levar à opy (casa de rezas) alguns elementos simbólicos que devem estar presentes no Nimongarai. Dentre esses elementos está o ombojapé, um tipo de alimento preparado com farinha de milho e água, assado nas cinzas de uma fogueira. O ombojapé só pode ser feito com sementes de milho guarani, qualquer que seja o cultivar disponível, com exceção do milho pipoca.

Nas escolas, o milho guarani e seus derivados como a pamonha, o beiju e o bolo são consumidos durante toda a semana e, uma vez que se constitui um alimento sagrado, ele também é levado para o consumo familiar. Na cultura guarani, alimentar-se com o avaxi ete'i tem poder curativo e fortalecedor do corpo e do espírito.

As espigas são entregues in natura para que os pais, caso queiram, as sequem e as mantenham preservadas para o preparo do ombojapé. Depois de secas e preservadas com fumaça, as espigas ainda podem ser plantadas pelas famílias, o que fortalece a soberania alimentar de toda a comunidade.
 

O projeto
 

milho

Foto: Acervo Funai

O projeto decorre da demanda indígena e dos esforços em rede da Funai e da Secretaria Municipal de Educação (Banco de Alimentos / Depto de Merenda Escolar) em fomentar o cultivo do milho Guarani nas aldeias do município de Itanhaém e de municípios vizinhos.

O trabalho foi desenvolvido com vistas à inclusão do produtor e do produto indígena na alimentação escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Em 2015 foi possível inserir o primeiro produtor indígena no Programa de Aquisição de Alimentos do município e, em 2016, foi possível incluir, pela primeira vez na região, a compra do milho guarani para a alimentação escolar destinada às escolas indígenas. Há perspectivas de ampliação das compras em 2017, tendo em vista que os produtores guarani já ampliaram e diversificaram a produção para itens que podem compor o cardápio das demais escolas do município.

Para o servidor da Funai Michel Idris, a proteção das sementes e ramas tradicionais prescindem de especial apoio das instituições que atuam com as políticas públicas indigenistas, tendo em vista seu valor cultural e simbólico e sua potencialidade para a garantia da soberania alimentar e da geração de renda: "os indígenas da nossa região, quando ficam sem sementes tradicionais, conseguem suas sementes em aldeias do sul e em países vizinhos como a Argentina e o Paraguai, mas o cultivo de milho transgênico e híbrido nessas regiões tem colocado cada vez mais em risco as sementes tradicionais indígenas, o que fez com que muitas variedades na sua forma pura já tenham desaparecido ou estejam em vias de desaparecer. Por essa razão é muito importante apoiar a estruturação de uma rede de guardiões de sementes e de ramas tradicionais, protegendo as variedades de milho, batata, amendoim e mandioca guarani", declarou.
 

Compra direta

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) contribui para o crescimento, o desenvolvimento, a aprendizagem, o rendimento escolar dos estudantes e a formação de hábitos alimentares saudáveis, por meio da oferta da alimentação escolar e de ações de educação alimentar e nutricional.

São atendidos pelo Programa os alunos de toda a educação básica (educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos) matriculados em escolas públicas, filantrópicas e em entidades comunitárias (conveniadas com o poder público), por meio da transferência de recursos financeiros.

Com a Lei nº 11.947, de 16/6/2009, 30% do valor repassado pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar deve ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar, medida que estimula o desenvolvimento econômico e sustentável das comunidades locais.

Já o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado em 2003, é uma ação governamental para colaborar com o enfrentamento da fome e da pobreza no Brasil e, ao mesmo tempo, fortalecer a agricultura familiar. Para isso, o programa utiliza mecanismos de comercialização que favorecem a aquisição direta de produtos de agricultores familiares ou de suas organizações, estimulando os processos de agregação de valor à produção.

Colaboração: Coordenação Regional de Itanhaém - SP

Publicado em 01 Fevereiro 2017

Autor(es): 
Mônica Carneiro/Ascom Funai